Desmonte na educação, nos direitos trabalhistas e avaliação sobre a esquerda são destaques em Congresso

 

O contexto político-social e as medidas de desmonte da educação e dos direitos trabalhistas foram o destaque  do segundo dia do 10º Congresso dos Trabalhadores/as em Educação do Sintepe, em Gravatá.

A primeira palestra da manhã de hoje (10), foi feita pelo professor adjunto da Universidade do estado do Rio de Janeiro e professor titular em Economia e Política da Educação, Gaudêncio Frigotto, que fez um panorama sobre o atual momento da educação brasileira, a mobilização dos estudantes nas ocupações de instituições educacionais no Brasil e como as reformas propostas pelo governo federal afetam diretamente a qualidade do ensino oferecido nas escolas públicas do país.

O Projeto Escola sem Partido foi um dos projetos citados durante palestra que, se aprovado, poderá afetar diretamente os trabalhadores em Educação. Para Frigotto, esse projeto destrói o que há de mais importante no ambiente escolar: a confiança que existe e está depositada entre alunos, professores, pais e funcionários. Para combater medidas como essa, o professor Gaudêncio Frigotto apontou a união da classe trabalhadora.  “Quando as gerações não se unem, a liga se quebra. Nós temos que congregar forças, porque o que acontece hoje na educação do Brasil é grave. Não podemos ter medo”, afirmou.

A união das esquerdas e da classe trabalhadora também foi ponto de discussão da mesa seguinte, que discutiu o contexto político-social do país. A mesa contou com as colaborações de Roberto Franklin Leão, Presidente da CNTE, José Luiz Alves, Doutor em Geografia e economista professor da Universidade de Pernambuco, Jandyra Massu Alves, Secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT e do coordenador do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE), Guilherme Fonseca.

Este, inclusive, foi o primeiro a dialogar fez duras críticas à política econômica da gestão petista e colocou que as medidas do governo Dilma contrariaram os interesses da classe trabalhadora. Para Fonseca, iniciativas como o bolsa banqueiro e a não realização da auditoria da dívida pública ajudaram a fortalecer a direita em seu golpe de poder. Jandyra Massu Alves complementou que com o golpe um ciclo foi fechado e era necessário a esquerda fazer uma reflexão sobre os motivos que levaram a esse desfecho e entender como as classes dominantes pensam e agem atualmente, uma vez que vivemos atualmente uma direita social, que vai às ruas e se manifesta.

Segundo a Secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT, o golpe tem retirado direitos e avanços da Constituição Cidadã, feito um alinhamento econômico com grupos tradicionais e reduzido as liberdades democráticas. Como forma de resistir a esse processo de medo, de opressão e de retirada de direitos, Jandyra lança luz sobre as ocupações escolares e para juventude, que tem demonstrado força para reagir, assim como aconteceu durante a ditadura militar.

Roberto Leão, Presidente da CNTE, fez uma reflexão sobre como os discursos da direita mudaram e como é necessário a esquerda também fazer uma atualização das suas concepções e discursos. Segundo Leão, os países que defenderam a globalização Margaret Thatcher (UK) e Ronald Regan (EUA), por exemplo, hoje estão sendo vítimas dessa globalização e estão propondo uma volta das medidas protecionistas, como foi com o Brexit e a eleição de Trump.

Os trabalhadores ingleses e estadunidenses hoje sofrem com a perda de trabalho porque as empresas instalaram suas indústrias em países mais pobres e que exploram os trabalhadores de países como a China, México. “Hoje, a esquerda não está conseguindo responder aos questionamentos dos trabalhadores atuais e é preciso buscar novas saídas, buscar os velhos e bons manuais, mas é necessário sobretudo atualizar a concepção do que os trabalhadores atuais querem”, refletiu Leão.

Educação no Estado e no país - Na tarde desta quinta-feira (10), os participantes do 10º Congresso dos Trabalhadores/as em Educação do Sintepe, ouviram palestras relacionadas as questões educacionais do Estado e do país.

No início, três vídeos foram passados, o primeiro deles, com artistas falando sobre as ocupações das escolas e da necessidade da sociedade se unir em defesa da educação pública e gratuita. Logo em seguida, o vídeo da estudante de 16 anos, Ana Júlia, que viralizou nas redes sociais. A jovem falou no plenário da Assembleia Legislativa do Paraná, sobre o motivo das ocupações nas escolas, a PEC 241 que agora é 55 e da reforma do Ensino Médio. A jovem chamou atenção da sociedade brasileira e internacional pela maturidade com que ela trata a educação. No último vídeo, a atuação dos policiais com os estudantes que ocupam a EREM Dom Sebastião Leme, no Ibura.

A mesa para debater as questões educacionais do Estado e do país coordenada pelo diretor do SINTEPE, Heleno Araújo, foi composta pela presidente da CUT-MG, Beatriz Cerqueira que tratou da real situação enfrentada após o Golpe, além dos caminhos que podem ser possivelmente traçados. Segundo Cerqueira, o objetivo do golpe é mudar o Estado brasileiro, rever o que teve de avanço na Constituição Federal de 1988, porque a elite não aceita o patamar de direitos conquistados pela classe trabalhadora. A exemplo dessa prática, a medida provisória 746 que nega o direito à educação e diz o seguinte: “Para o trabalhador, a educação tem que ser rápida para ir para o mercado de trabalho, a escola agora, é para os ricos, que têm tempo”, garantiu.

Ela ainda destaca, que com essa medida provisória, a escola funcionará como um espaço (numa espécie de relação opressor/oprimido, e que o direito à educação será considerado algo privado. A sindicalista assegura que o que precisa ser feito é reconhecer a derrota e pensar as estratégias para o próximo período. “Este é um momento de rupturas e mudanças estruturais para nos articularmos”, pontuou. Cerqueira apontou para possíveis pontos que precisam ser trabalhados como: é preciso fazer trabalho de base para dentro e fora, estabelecer contato com a base, por entender que as pautas pedagógicas dependerá da repactuação do diálogo e tendo consciência que a luta será de longa duração, na tentativa de pensar em táticas para além do imediato.

Logo em seguida, o professor da rede estadual de Sergipe e diretor de imprensa da CNTE, Joel Santos dialogou com o que Cerqueira tratou, e enfatizou a importância do debate educacional sem perder de vista a análise conjuntural. E aos poucos, o docente foi apontando possíveis equívocos nas gestões de Lula e Dilma. Por fim, ele garantiu que a união é fundamental para buscar soluções para este momento tão delicado.

Nesta tarde também, a professora da UNB e membra do Conselho Superior do Instituto Federal de Brasília, Olgamir Amancia, começou mencionando que a política educacional está descontextualizada do momento.  Segundo ela, a educação está em risco e o país vive em um Estado de exceção. “A luta da educação precisa ser compreendida como luta de classe. Elegemos um governo, um modelo de sociedade, mas não mudamos as bases sociais de produção”, sublinhou.

Amancia complementa e assegura que “Precisamos criar um espectro de polaridade e tentar dar voz aos trabalhadores deste país. A saída existe e precisaremos de uma ampla aliança e mobilizar os vários setores”, finalizou com o Fora Temer e gritos pela democracia.

E por fim, a representante da PSTU, Simone Fontana enfatizou a retirada de direitos através do arrocho salarial, e das futuras construções que precisarão ser feitas para conseguir algo maior. “Vamos para cima e a luta precisa ser unificada das mulheres, dos negros, dos movimentos sociais, dos desempregados”, frisou.

Fotos: Agência JC Mazella