Cartilha para acabar com o preconceito

Professores da rede estadual receberam material para trabalhar em sala de aula e evitar conflitos.

“Até aceito homossexual, mas longe de mim”. “Mulher que trai o parceiro merece apanhar”. As frases pertencem a um grupo de adolescentes de uma escola pública do Centro do Recife. Os estudantes chamam atenção pela intolerância. Revelam que os jovens precisam de mais informação, seja na escola, seja na família. Professores de todas as unidades estaduais de ensino receberam da Secretaria de Educação cadernos com orientações curriculares para a educação em direitos humanos. O objetivo é começar a mudar conceitos dos jovens a partir da sala de aula, usando como ferramenta as próprias disciplinas de matemática, português e ciências, por exemplo.

Ao todo, 31 mil cadernos foram distribuídos para professores lecionarem a alunos do ensino fundamental e médio. “O material tem textos que, além de ajudarem na formação do professor, podem também ser aproveitados por eles em sala. Outro exemplo prático é desenvolver exercícios de matemática usando dados relativos à fome ou à violência contra a mulher”, explicou Ana Selva, secretária executiva de Desenvolvimento da Educação.

O caderno de 142 páginas tem oito eixos temáticos que incluem o enfrentamento da pobreza e da fome, a promoção da igualdade entre gêneros e diversidade sexual, sustentabilidade sócio-ambiental, garantia da preservação do patrimônio material e imaterial, direito à terra, relações étnico-raciais, garantia do bem-estar físico e os tempos humanos, além da garantia dos direitos.

O professor Carlos Tomás conta que antes mesmo de receber a cartilha chegou a desenvolver um trabalho de promoção dos direitos humanos junto a alunos de uma escola pública de Jaboatão dos Guararapes que terminou rendendo bons frutos. “O projeto final foi trabalhar um texto que contava a história de dois garotos que foram flagrados pelo pai de um deles se beijando. Por conta disso, o pai queria matar o filho. A tarefa era cada um dar um final para a história. Acredito que a mudança acontece a partir dessas experiências, mas ela é lenta”, concluiu.

Na Escola Estadual Polivalente de Abreu e Lima, na RMR, o professor de biologia Inaldo Nascimento provoca os seus estudantes a entenderem as diferenças entre sexo biológico e identidade sexual. “Muitas vezes o indivíduo nasce com uma identidade que não corresponde ao seu sexo”, afirmou Inaldo, que já venceu o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, concedido pelo MEC, em 2008, com o tema Homofobia, lesbofobia e transfobia no contexto escolar. “Muitos estudantes têm a ideia preconcebida de que a homossexualidade é uma doença. É um dever do professor de biologia mostrar que isso não existe na ciência”, acrescentou.

Trechos dos textos

Fome

“A fome não é um produto da superpopulação: a fome já existia em massa antes do fenômeno da explosão demográfica do após-guerra. Apenas esta fome que dizimava as populações do Terceiro Mundo era escamoteada”

Josué de Castro

Homossexuais

“Ao mesmo tempo em que vemos e convivemos cada dia mais com uma diversidade sexual cada vez mais rica e menos rotulada, se mantêm e até se reforçam atitudes preconceituosas, discriminatórias e violentas”

Alexandre Bortolini

Preconceito racial

“O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor, mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor”

Trecho de música de Lamartine Babo

Idosos

“O ser humano deveria criar para si a concepção do envelhecer como sendo mais uma etapa a ser vivida por ele e seus semelhantes; perceber que, ao envelhecer, torna-se pleno, traz consigo histórias, e, em suas lembranças, marcas de toda uma trajetória”

Elzimar Campos Guimarães
 

Fonte: Diario de Pernambuco